Arquivos de Categoria: poesia

Novo site

Este post pretende ser o último por aqui, todo o material daqui vai para o novo site no domínio http://jetersilveira.com.br. Saudações!

Anúncios

QUE NADA

Eu amo esse imenso
vazio que eu tenho.
Um pouco de tudo
que foi, que fui,
que nunca…

Por todo esse nada que eu tenho,
tudo o que tenho é amor.

Se alguém rouba, e preenche,
o nada que é meu,
eu sempre retomo e, de novo,
sou nada mais eu.

O preço da liberdade
É um grande vazio
de saudade.
É um nada por dentro.
Que nada! É amor.

Jéter Silveira

FRACASSO

Disse lá o velho apóstolo:
“O que quero fazer
eu não faço.
O que não quero fazer,
isso eu faço.”

Eu faço o que quero
Quando faço o que não quero.
Mas quero o que faço
e o que não faço também.

Jéter Silveira

DESTINO

Contei os passos, os sonhos
Os fracassos, tudo.
Meu destino quer que eu chore.

Meu destino quer meu mundo
E o mundo, que eu me apavore.

Chorei. Lavei o raciocínio.
Mas que diabos é essa coisa
Que chamo de “meu destino”?

Na inocência de criança,
Vejo a volta da esperança
Alumbrando meu caminho.

Jéter Silveira

MALDADE

O tempo me priva, aos poucos,
De cada orgulho meu.
Cada vez que isso acontece,
Me torno melhor, e mais eu.

Me torno mais simples, e atento
A cada injustiça que passa.
Sinto, com amor, a desgraça,
E com compaixão o tormento.

E o mundo me priva, aos poucos,
De cada orgulho meu.
E a vida transforma a maldade
No melhor que me aconteceu.

Jéter Silveira

Ouvir estrelas…

A Noite Estrelada - Van Gogh

A Noite Estrelada – Van Gogh

Nesses tempos de diversidades, diferenças e busca de conhecimento e reconhecimento… os artistas se encontram e se completam: Van Gogh e Olavo Bilac, ao som de Don McLean. Dá pra aproveitar e refletir no diferente, no estranho e “esquisito”:  amar para entender 🙂

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Vou me ater ao trecho ainda otimista da letra de Don McLean:
Now I understand what you tried to say to me
how you suffered for your sanity
how you tried to set them free.
They would not listen
they did not know how
perhaps they’ll listen now. 🙂

Abraços!!

Cláusula Perdida

Saulo Ramos, ex-ministro da Justiça e Consultor-Geral da República, intitulou seu livro de memórias de Código da Vida, fazendo referência à sua vida de estudar e trabalhar com códigos, numa conclusão de que a vida também tem o seu.

Pois nesse Código da Vida, às vezes,  a gente não passa de uma cláusula perdida que o Legislador esqueceu… dá até pra ouvir as vozes jurisconsultas: “é uma cláusula perdida!”

O militar, a Bandeira e Castro Alves

bandeiraCastro Alves é, por conta de “Navio Negreiro”, meu poeta favorito do Romantismo. Nesse post quero compartilhar esse poema, e uma versão declamada que encontrei no YouTube. Essa versão declamada, infelizmente, é incompleta, reduzida. Pode-se até dizer que um pouco machista a seleção das estrofes que, na parte V do poema, suprimiu as estrofes que falavam especificamente das mulheres, das crianças e das jovens negras. Todavia, não encontrei outro. Aconselho, então, a quem se interessar, que leia(m) o poema completo no arquivo PDF que disponibilizo ao fim dessa postagem.

A primeira vez que li Navio Negreiro em sua íntegra foi quando aluno do Período Básico do Curso de Formação de Sargentos (CFS) do Exército, que fiz no 6º Regimento de Cavalaria Blindado, em Alegrete, no Rio Grande do Sul. Incorporei lá em 9 de junho de 2008, recém completos 18 anos, dando início a uma etapa de aprendizado intenso e experiências marcantes. No Grêmio dos alunos do CFS tínhamos uma pequena biblioteca, constava de uma estante com alguns clássicos de literatura brasileira e outros livros da Biblioteca do Exército, uns manuais militares e livros de história militar. Dentre esses, lá estava Espumas Flutuantes, de Castro Alves, numa edição pela BIBLIEX.

Na primeira semana do curso, tínhamos que aprender uma canção militar por dia, que deveria ser apresentada no dia seguinte: todo o curso deveria cantar a canção, com vibração, para que os instrutores pudessem ver que todos sabiam. Evidentemente, alguns falhavam e eram imediatamente convocados para cantar diante de todos, o que era uma forma de fazer com que ninguém quisesse estar nessa situação. Assim, não raro virávamos a noite no Grêmio (só podiam ficar luzes acesas no Grêmio e nos banheiros, durante a noite) a fim de decorar as letras e melodias dos hinos e canções do exército.

Uma vez acostumado a esse “ritmo de estudo”, ler Espumas Flutuantes foi um trabalho leve. Consegui lê-lo em uma noite, e fiquei particularmente impressionado pelo poema Navio Negreiro, que acabei decorando as duas primeiras estrofes da parte VI. Essas estrofes, particularmente a segunda, me acompanharam durante o restante da minha vida na caserna. Lembro-me de, quando aluno do período de qualificação, na Escola de Comunicações, no Rio de Janeiro, quando estávamos em forma prestando as honras militares à Bandeira Nacional, na posição de sentido, sustentando o fuzil em “Apresentar Arma”, admirando a formosura e o significado do símbolo nacional que lentamente era hasteado à nossa frente, vinha-me à mente a segunda estrofe da parte VI:

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Estamos às vésperas do início da Copa do Mundo da FIFA, que acontecerá no Brasil, e já provocou vários e alguns exagerados gastos por parte da Administração e muita objeção por parte de parcela considerável da população brasileira. Ainda assim, muitos de nós compram bandeiras, colocam em seus carros, e o sentimento de patriotismo parece estar mais à flor da pele. Interessante seria aproveitarmos esse momento histórico, quase cívico, para refletirmos sobre o significado desse símbolo que é a Bandeira Nacional. Mas, principalmente, a que tipo de nação ela está servindo, e de quê está servindo a esse povo? Será de mortalha?

É tempo, talvez, de refletirmos sobre a situação da educação em nosso país, com números de alfabetização que servem apenas para estatística, uma vez que alfabetizados mal sabem escrever o próprio nome, nunca leram um clássico sequer da literatura brasileira, e não tem consciência da importância da própria educação… Quem sabe, talvez, pensar sobre a saúde, sobre as condições gerais de transporte e de trabalho… sobre política! Que importante seria pensarmos sobre política, com honestidade. Mais importante ainda, pensarmos sobre nossos valores. Isso é o que significa pensar a que tipo de nação a bandeira está servindo: quais são os nossos valores?

O funkeiro MC Garden, na música Isso é Brasil, afirma: “Na Bandeira são somente cores, os nossos valores você não sentiu! Isso é Brasil! Isso é Brasil!” (veja a música aqui ou ao final do texto) Hoje aqui, nessa humilde texto, pergunto, no contexto da música do MC Garden: isso, realmente, é Brasil?? É isso que somos? É isso que queremos ser? Somos um povo que, ainda hoje, escraviza, maltrata, não tem saúde, educação, e se diverte enquanto tudo isso acontece?

Nós, militares, temos o costume de bradarmos: “BRASIL!” Mas, afinal… o que é Brasil?

 

Confira os vídeos do MC Garden e do Poema Navio Negreiro:

Confira o texto de Navio Negreiro, na íntegra:

https://jetervaz.files.wordpress.com/2014/06/o_navio_negreiro_de_castro_alves.pdf