Arquivos Mensais: abril \29\UTC 2015

Alvorada

Escola de Comunicações. Rio de Janeiro – RJ. Ano de Nosso Senhor de 2009.

Gumbo_Limbo_Tree_DeSoto_National_Monument

“Uma árvore bastante frondosa […] é a primeira coisa que enxergo na minha manhã.”

Alvorada. 5h50. No alojamento bem arejado, com janelas de ambos os lados por todo o comprimento, minha cama fica perfeitamente alinhada à uma delas. Tem um espaço correspondente ao telhado da calçada que une a porta do nosso pavimento ao contíguo, reservado aos sargentos alunos dos cursos de especialização e de aperfeiçoamento. Depois desse espaço, uma árvore bastante frondosa, que ultrapassa a altura da minha janela, e é a primeira coisa que enxergo na minha manhã. Dá pra ver o sol brilhando nas folhas, bem verdes, que parecem até refletir o azul do céu em  alguns pontos cintilantes. São seis horas, tem gente que já levantou, outros levantam agora. Os passarinhos cantam, espalhados nas outras árvores que existem ali, parecidas com a minha. Eu ainda espero. Nesse momento sempre me dá uma nostalgia sem tamanho.  Já faz tempo que estou aqui. No meio de tanta gente, e só.

Eu poderia ter feito tanta coisa… deveria ter estudado mais. Não deveria ter desistido dos cursos, da vida de estudante que levava. Lá eu tinha futuro. Aqui estou lutando para sobreviver, apenas, um dia depois do outro. Mas uma hora a formatura chega, e aí estou livre. Aí vou poder estudar, vou poder ir pra onde eu quiser, vou ter minha casa, meus móveis, um carro… e minha liberdade. Ou talvez nem tanto. De qualquer forma, pensar na formatura é ter esperança. Como dizem nossos instrutores: “nada pára a marcha inexorável do tempo”… Ainda estou com sono. A arrumação de cama, hoje, é complicada de fazer. A manta verde-oliva tem que ser dobrada e disposta como uma “linha” bem no meio da cama, e todas as camas tem que estar com a manta na mesma posição, tudo alinhado. E ainda vai ter treinamento físico com o…

— Bora, Silveirinha, vai se atrasar aí! — o colega da beliche do lado, o mais antigo e mais experiente do nosso pelotão, me chama para a vida real. Rolo na cama, desativo o “soneca” que estava para despertar alguns minutos depois, é deslizo para o chão, e começo a dobrar a minha manta. Eu sou é muito raro, mesmo.

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