Homenagem à(s) Mulher(es) do Dia – 08 de março

Essa postagem é de véspera. Amanhã é o Dia da Mulher. Já vinha pensando que precisava fazer isso, e esta é a minha deixa. Preciso homenagear a Mulher do Dia. É uma dessas que sofre com a gente, choram com a gente, riem com a gente, e sentem muito mais felicidade do que nós mesmo quando estamos felizes. É minha mãe. Só que “mãe” é muito pouco pra ela, daí a gente chama ela de “Teta”. Sim, porque somos cinco crias que saímos das suas entranhas e que, desde que saímos de lá, não paramos de brigar por quem “mama” mais. Três dessas crias, aliás, são mulheres lindas, elegantes e fortes, exemplos a todo o gênero, e me enchem de orgulho. Em uma outra postagem aqui, falei do “Véio”, hoje eu falo da “Teta”. 🙂

Um pouco de história. Eu sou o mais novo da casa, então sei muito pouco. Sei um pouco de ouvir daqui e ali, de um e de outro, e sei que se conhecesse mais um pouco eu só iria me apaixonar mais. Minha mãe, quando era moça, antes de casar-se, já trabalhava duro. Quando criança mesmo, já trabalhava pesado. Filha mais velha em uma família onde não havia filho homem, ela era o “homem da casa”, depois do meu avô (nessas divisões de trabalho antigas onde homem trabalhava fora e no serviço pesado, e mulher ficava dentro de casa nas coisas – às vezes nem tão – “delicadas”). Meu avô foi reformado por problemas de saúde ainda novo da Brigada Militar (Polícia Militar do Rio Grande do Sul), por causa de um derrame que lhe paralisou completamente um lado do corpo. e manteve uma sapataria por um certo tempo. E o Seu Feliz nunca foi de ficar muito tempo parado: manteve uma sapataria por um certo tempo, construiu casa de fundos, levantando paredes e tudo o mais, com apenas um lado do corpo “funcionando”. Mas é claaaaro que ele não fez isso sozinho: sua filha mais velha, a Vera (ou, neste texto, “Teta”) estava lá, firme na paçoca, “pegando em qualquer ponta”. Minha mãe fazia de tudo: cavar buraco, fazer argamassa, pegar um ônibus para ir no centro de Porto Alegre comprar artigos de sapataria em lojas de freguesia predominantemente masculina (pra não dizer que “só tinha homem”), ignorando de cabeça erguida as palhaçadas dos machistas ignorantes de plantão. Minha mãe é uma dessas mulheres que, sem jamais ter levantado uma bandeira do movimento feminista, fez mais pela causa do que milhares de ativistas.

Casada, minha mãe logo teve que parar de trabalhar fora para cuidar dos filhos (meu pai não perdia tempo rs). Há alguns dias atrás, li e compartilhei um artigo intitulado “Mãe que fica em casa: você não deve ao mundo uma explicação”. Alguns dias depois, minha mãe dizia de uma “amiga” que contava vantagem sobre ela porque sempre tinha “trabalhado” e conseguido as “próprias coisas”… o mundo pede explicações a que não tem direito. Particularmente, não sei se seria melhor que minha mãe tivesse optado por uma carreira secular e acadêmica a cuidar de seus filhos da melhor maneira possível. Eu acho que ela trabalhou muito mais, com o tipo de trabalho que ela escolheu: ser mãe em tempo integral. Sendo dona de casa, minha mãe era responsável por lavar roupas, cozinhar, manter a casa toda em ordem… e isso, quando você leva em consideração que eram SETE moradores, não é naaaada fácil. Ainda mais, quando o seu trabalho é na sua própria casa: aí você não tem folga, férias, nem licença-prêmio.

Eu sou o mais novo dos cinco filhos e, quando fomos ter uma máquina de lavar roupas em casa, eu já tinha mais de cinco anos. Lembro muito bem: meu pai ainda teve que fazer um consórcio para comprar a máquina de lavar… daqueles programados, sabe? E ainda teve que manter em segredo da minha mãe até que saísse “sorteado”: imagine só, com tanta coisa “mais importante” e tanta conta que a gente tinha, botar “dinheiro fora” numa máquina de lavar??? Meu pai foi lá, comprou a “maquininha”. Uma daquelas PROSDOCIMO antigas que tinha um bloco de concreto no fundo (pesada que só!!) para não “pular” muito (e de vez em quando a gente ainda tinha que correr e subir em cima da máquina quando começava a centrifugar). Mas eu estou falando de quando eu me lembro!! E quando eu nem nascido era, e eles tiveram que se mudar em uma transferência não-solicitada de meu pai da região metropolitana da capital gaúcha para uma cidadezinha do interior onde nenhum dos dois tinha sequer um familiar! Nessa transferência, uma mudança épica (rs) em uma Brasília amarela que meu pai tinha na época, eu fui quem viajou mais confortável durante todo o tempo, mais seguro: na barriga dela 🙂

Em Cruz Alta passaram muitas dificuldades, moraram mal, com quatro filhos em casa de um quarto só… mas o mais interessante, e um pouco engraçado, disso tudo (rs :D), é que eles ainda conseguiam fazer CARIDADE!! Levaram de Porto Alegre pra lá uma velha senhora necessitada… pra ajudar e dar um apoio. Pobres dos meus velhos! 😀 haha Meu pai, claro, ia trabalhar nas noites frias, nos sóis quentes… mas minha mãe é que tinha que ficar em casa, aturar a velha, e ainda cuidar dos quatro filho de fora e do quinto de dentro da barriga!! Oh vida! rs 🙂 Nessa cidade eu nasci. Minha mãe iniciou lá um trabalho na igreja com um grupo de jovens, dando incentivo e valores pra uma juventude que era reservada ao segundo plano nos cultos e liturgias. Inteligente, sempre esforçada e dedicada a aprender, com um grande talento para a música, uma voz linda e um pulmão invejabilíssimo (alcançava a gente à longa distância, não adiantava se esconder kkk rs), ela deixou em Cruz Alta uma semente que brotou, cresceu e germinou. Muitos anos depois, quando foi morar em Cruz Alta novamente, encontrou seu grupo de jovens com famílias lindas, constituídas, todos eles até hoje apaixonados por ela.

teta

Teta e eu, gordo de tanto mimo e comida boa (a melhor comida do mundo é a dela, não contei, né?.. mas é reconhecida internacionalmente!!)

Preciso resumir. É difícil e injusto, mas vou ter de fazê-lo, pois dez anos de blog não seriam suficientes para fazer justiça. Nós mudamos pra cidade de Santiago (onde eles estão morando de novo, atualmente) antes de eu completar cinco anos, e minha mãe trabalhava na igreja dirigindo corais (teve um tempo que ela trabalhava com TRÊS corais ao mesmo tempo, em três bairros distintos), dando aulas na Escola Dominical – nossa.. as lições dela para crianças até hoje ficam na memória da gente!! Adultos disputavam lugar na platéia de suas lições! -, aconselhando jovens, até homens velhos, e até foi uma grande incentivadora da criação de uma banda de música na cidade (os músicos que iniciaram os trabalhos de aula de música na Igreja sede da cidade eram do nosso bairro). Sobre a Escola Dominical, quem não lembra da história do Edmundo??! Era uma história de um homem surdo e azedo que odiava crentes, e também detestava crianças, porque frequentemente surrupiavam frutas do seu pomar. Mas ele vigiava todo domingo um grupo de crianças que passava de manhã cedo por ali cantando uma música: “Jesus ama este mundo, ele morreu por mim…” Como era surdo, ele entendia que elas cantavam “Jesus ama Edmundo, ele morreu por mim…” E, como achava estranho, seguiu as crianças um dia, pra ver onde iam. Acabou entrando na igreja, ouvindo falar de Jesus e de seu Amor, e acabou se transformando de um homem azedo num sujeito de cara linda e sorridente, que adorava compartilhar as frutas do seu pomar com as crianças!! 😀 E essa história era contada com desenhos coloridos, figurinhas, cartazes, flanelógrafo… as músicas pras crianças todas eram escritas em cartazes coloridos, atrativos. Tudo muito especial.

De vez em quando reclamo da minha vida, acho difícil uma coisa ou outra. E aí lembro desses tempos… e fico imaginando. Minha mãe lavava à mão as nossas roupas, fazia nossas comidas sem auxílio de microondas e tele-entregas, e nunca tivemos um almoço atrasado, a roupa sempre cheirosinha. Na hora de ir pra escola, as crias saíam cheirosinhas, limpinhas, e bem alimentadas. E quando chegávamos ainda sentíamos de longe aquele cheirinho de bolinhos de chuva com café passado… 😀 Tudo com muito amor e cuidado. Quando nos lembrávamos disso trazíamos do caminho alguma flor de maçanilha ou cravo arrancada de algum lugar, que ela colocava num copinho cheio d’água e punha como decoração em algum lugar onde todo mundo pudesse ver. Minha mãe fazia nossas roupas!! Ela costura, faz tricô e crochê com uma habilidade que invejo até hoje kkk rs 🙂 Tentei já me aventurar nesse tal de crochê, mas fica tudo torto, um ponto maior que o outro, e demoro uma década para fazer cinco “correntinhas”. Ela faz um tapete todo em um dia, numa velocidade incrível, com um ponto apertadinho, alinhado, perfeito… #inveja kkk rs 😀 Ela selecionava os livros que a gente lia. Sempre lemos muito lá em casa, todos os filhos, e minha mãe sempre olhava os livros antes de a gente poder ler (muitos dos que ela censurava, ela levava pra ler, escondida kkk haha afinal era censurado só pra nossa idade hahaha).

Depois de tanto sofrimento com tanta cria (sofrimento que dura até hoje, ela ainda passa noites sem dormir de preocupação com a gente), ela finalmente teve tempo pra começar a investir nela mesma. Com mais de cinquenta anos, ela passou na primeira tentativa em todos os testes para obter a própria Carteira Nacional de Habilitação (certo que ela já tinha dirigido Opala e Kombi, né, aí esses carrinhos novos ficam fáceis haha), fazendo muito moleque corredor de Kart passar vergonha 😀 E ainda, no Detran do Rio Grande do Sul, um dos mais exigentes do Brasil nesse quesito (é absolutamente normal que jovens façam a prova três ou quatro vezes para passar). É incrível ainda que ela sempre diga, quando a gente faz qualquer coisa boba pra ajudar, “muito obrigado, meu filho” e “já fez demais”, quando você sabe que, na verdade, é completamente incapaz de fazer qualquer coisa que possa ser comparada com tudo o que já fizeram por você. Só resta aprender, amar, amar muito, e reconhecer que cada conselho dela sempre é do bom e do melhor: ela tem uma sensibilidade e um faro muito aguçado pra certas coisas 😀

O cafezinho virou "nossa tradição". :D

O cafezinho virou “nossa tradição” 😀

Enfim, essa é a mulher do dia. Não sabe o que fazer de mimo pra gente. Quando a gente fala de ir visitar, ela já está indo no mercado fazer compras, pra preparar coisas, comprar chocolate, doces, ingredientes pro sorvete delicioso que só ela sabe fazer, e café (muito café). O cafezinho virou “nossa tradição”. Minha mãe é muito cult hehe Com ela, eu parava depois do almoço pra tomar um cafézinho e assistir algum concerto do Josh Groban, “aquele cantor italiano da voz bonita” 🙂 Daí não dá pra falar tudo… acho que já passou um bom tempo desde que eu disse que iria resumir. Aí vou só colocar uma música aqui, que é pra dedicar pra Teta 🙂 A música é do cantor da voz bonita… Essa música se chama “You raised me up”. A expressão “raise up”, do inglês, pode significar “levantar algo ou alguém”, como está na tradução desta legenda, mas ela é utilizada também no sentido de “criar filhos”. Quando se diz “a mãe criou seus filhos”, diz-se “the mother raised her children”. 🙂 Tem uma mensagem subliminar aí, não tem?? 😀 Beijão, Teta!!!

Fica aqui, claro, a minha homenagem para as filhas da Mulher do Dia, que também são as minhas referências no gênero: a Queila (“Preta”), minha irmã mais velha (também minha “segunda mãe”, que me fez dar uma volta correndo no quarteirão, só de cuecas e todo ensaboado, para fins de me enxaguar no meu banho-de-chuva \o/ :D), a Daniela, ou Dani, minha irmã do meio (nossa desenhista, cantora, poeta, toda cheia de talentos… e gata!!!), e a Tamáris (“Tatá”),  a mais nova das três (minha companheira de mate, de cafezinho – e a gente tomava café juntos quase todo dia assistindo o “Bom Dia, Rio Grande” e monitorando as temperaturas em cada cidade kkk 😀 -, parceira pro que der e vier, e a mais nova mamãe da família!!! <3) Beijos a todas essas Rainhas da Criação! 🙂 rs

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