Arquivos Mensais: fevereiro \05\UTC 2014

Ação dos policiais em Santa Maria, “arrastando” o engraxate, e os comentários

Assunto: http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/noticia/2014/02/video-mostra-policiais-arrastando-homem-no-centro-de-santa-maria-4409666.html

Existem, muitas vezes, abusos por parte da polícia, e eu mesmo sou um crítico. Mas não é o caso. Não vi nenhum excesso. Na própria reportagem do Diário de Santa Maria, o testemunho de um transeunte é o seguinte: “…não sei o que aconteceu antes. Todo mundo conhece ele e sabe que ele não é santo, que algumas vezes importuna algumas mulheres, mas mesmo assim achei exagerado…”. O argumento do produtor cultural Leonardo Gadea, 27, é de que “a gente tolera tanto criminoso cruzando nosso caminho todo dia [sic], por que não podemos tolerar uma brincadeirinha de mau gosto”. “A gente”? Talvez seja a ele comum “tolerar” criminosos, mas essa sim é uma postura que não se espera de nossos policiais, e certamente não é a que têm. Criminosos devem ser presos, processados, julgados e condenados (e a polícia militar tem apenas uma parcela – mínima se comparada ao todo – de participação nisso tudo). Com certeza houveram fatos anteriores, nunca mostrados em vídeos desse tipo, que culminaram na cena do cidadão sendo CONDUZIDO (pois foi o que ocorreu).

Em uma postagem do facebook, um amigo comentou: “não acredito que seja isso que ensinam aos policiais na aula [sic] de abordagem [sic]”. As aulas, para os policiais, chamam-se “instruções”. E a matéria é “condução tática”. Nesses dois links pode-se ter uma ideia do que se trata: Vídeo no YouTube de técnica e Reportagem sobre treinamento policial. Os policiais militares aprendem nas instruções as “técnicas de condução”, e é isso que tentaram aplicar. Infelizmente, a prática foge da teoria: o cidadão não parecia estar no gozo de suas faculdades mentais, chorando e nada falando com sentido. No vídeo não aparece nenhuma AGRESSÃO, os policiais apenas o estavam conduzindo, e com o máximo de carinho, eu ainda diria, possível… na “técnica” aplicável. A maneira que o conduziram foi esta porque ele se jogou no chão, para chamar a atenção, não foi violenta de nenhuma forma, e isso é inegável. “ARRASTARAM o pobre engraxate”, dizem, como se assim fizessem justiça aos fatos. O homem não foi submetido à vexame pelos policiais. Ele poderia ter se deixado conduzir numa boa, ou reagido (é direito dele), mas optou por fazer um “fiasco”, para que todos vissem o que os “brigadianos” fazem “a um pobre engraxate”. É certo que o fato é lamentável, porém jamais a atitude dos policiais. Decerto esperava-se que o levassem no colo… pouco importa se o policial será agredido: é “pago” pra isto, não é?

Tenho sim, sentimentos pelo homem que está sendo “arrastado”, mas também os tenho pelos policiais militares que estão exercendo suas funções da melhor maneira possível, basta acompanhar o trabalho deles e exercitar um mínimo de empatia (arte de se colocar no lugar do outro, a quem conhece) para entender a perspectiva. A verdade é que o policial militar, cidadão também, de pleno direito, que está ali a conduzir o sujeito, é visto pela sociedade da mesma forma como esta vê aos professores: como SUPER-HERÓIS, humanos dotados de poderes especiais. Mas isso é apenas na hora da crítica, da exigência, nunca no reconhecimento. Basta que nossos policiais militares, bem como os professores, são os que recebem os piores salários de todo o funcionalismo público, menos investimento público têm na melhoria de seus quadros, de suas formações e possibilidades de trabalho, e são os que mais sofrem demanda social (no caso policial, PENAL também) no exercício de suas funções! O policial militar de serviço é serviço de informações, guarda de trânsito, psicanalista, conselheiro conjugal e amoroso, atendente do Centro de Valorização da Vida, “braço forte”, “mão amiga”, enfim… é como um “serviços gerais” da sociedade, pra tudo conta-se com ele, e pra tudo está disposto. E de tudo que ele faz se reclama. Faz o serviço de “seu vizinho”, do “fura-bolo” e do “mata-piolho”, é visto como o “pai-de-todos”, mas na verdade é o “seu mindinho”… (não entendeu?)

A crítica aqui deve ser feita ao Estado e ao governo, não aos policiais. A crítica deve ser feita, justamente, aos “engravatados” (o mesmo amigo referiu que os “engravatados receberiam tratamento mais confortável”) que, do ar condicionado de seus gabinetes, dão um EMPREGO para um cidadão: entregam-lhe uma arma, uma tonfa(1), um colete à prova de balas, e “boa sorte.. ninguém convidou você pra vir pra cá, não está satisfeito, vá embora!” É isso mesmo: dão-lhe um emprego, mal pago ainda, e esperam que o empregado veja seu trabalho como um sacerdócio. O cidadão policial militar é tão vítima do sistema quanto o miserável. E somos nós mesmos, cidadãos observadores e  críticos do trabalho policial, que legitimamos esse status quo cada vez que vamos às urnas. Como disse, lamentável o fato: basta saber de quem lamentar. Normalmente, de um “pralamentar” ou congênere… na verdade, de nós mesmos.

P.S.: E diante das incompreensões da sociedade, o policial militar deve permanecer silente e disciplinado, pronto a receber quaisquer punição que lhe for determinada. Em última análise, ser policial militar é, sim, um sacerdócio.

(1) Veja nesse link uma demonstração, em treinamento, do uso da tonfa. Nesse outro link, veja a utilização da mesma por um policial da Brigada Militar na cidade de Barros Cassal, no ano passado, atuando para deter um cidadão que, armado de um tchaco (não “cinta de couro”, como diz na descrição do vídeo), arma confusão em um bar. Exemplo de uso moderado da força, técnica e habilidade policial.

(2) Embora tenha colocado o link no meio do texto, acho importante destacar o discurso da professora Amanda Gurgel, em audiência pública na Câmara dos Deputados do Estado do Rio Grande do Norte. Veja aqui.